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domingo, 21 de setembro de 2008

Diz muito sobre mim.

Não aguentei, tinha que postar esse poema aqui.
Ele diz muito sobre mim, sobre o que eu penso, sobre ser mulher negra no Brasil.
É frustrante olhar pra TV e não se encontrar ali, perceber que aquela maquiagem que é anunciada no Programa da Ana Maria não fica bem em você, descobrir que aquele corte que a Lara da novela tá usando não fica legal no seu cabelo.
Sei que as coisas estão mudando, que já é comum vermos um negro apresentando um jornal, uma familia negra na novela, mas eu quero mais.
Sonho com o dia em que ver um negro na TV não será obrigação, ele simplesmente vai estar lá.


ASHELL, ASHELL PRA TODO MUNDO, ASHELL
Ela mora num Brasil
mas trabalha em outro brasil
Ela, bonita... saiu.
Perguntaram: Você quer vender bombril?
Ela disse não.
Era carnaval.
Ela, não-passista, sumiu.
Perguntaram: empresta tuas pernas, bunda e quadris para um clip-exportação?
Ela disse não.
Ela dormiu.
Sonhou penteando os cabelos sem quererse fazendo um cafuné sem querer...
Perguntaram: você quer vender Henê?
Ela disse nããão.
Ficou naquele não durmo não falo não como...
Perguntaram: Você quer vender omo?
Ela disse NÃO!
Ela viu um anúncio da cônsul pra todas as mulheres do mundo...
Procurou, não se achou ali.
Ela era nenhuma.
Tinha destino de preto.
Quis mudar de Brasil; ser modelo em Soweto.
Queria ser qualidade.
Ficou naquele ou eu morro ou eu luto...
Disseram: Às vezes um negro compromete o produto.
Ficou só.
Ligou a tv.
Tentou achar algum ponto em comum entre ela e o free:Nenhum.
A não ser que amanhecesse loira, cabelos de seda shampoo
mas a sua cor continua a mesma!
Ela sofreu, eu sofri, eu vi.
Pra fazer anúncio de free, tenho que ser free, ela disse.
Tenho que ser sábia, tinhosa, sutil...
Ir a luta sem ser mártir.
Luther marcketing
Luther marcketing... in Brasil!

(Da série "Brasil, meu espartilho")

Elisa Lucinda